Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner: Afirmações vs. Evidências
A teoria das inteligências múltiplas, do psicólogo Howard Gardner, defende que a inteligência não é uma única aptidão geral captada por um só resultado, mas um conjunto de talentos largamente independentes — musical, corporal, interpessoal e outros, ao lado das aptidões lógicas e verbais que os testes de QI medem. É uma das ideias mais influentes da educação moderna. É também uma das mais contestadas na psicologia da inteligência. Eis o que a teoria afirma realmente, por que motivo se tornou tão popular, e o que acontece quando é testada empiricamente.
As oito inteligências (e uma nona hipotética)
Gardner propôs inicialmente sete inteligências em Frames of Mind (1983), acrescentando uma oitava em 1999 (Gardner, 1983):
- Linguística — facilidade com as palavras e a linguagem.
- Lógico-matemática — raciocínio, números, reconhecimento de padrões abstratos — a maior sobreposição com o que mede um teste de QI tradicional.
- Musical — sensibilidade ao ritmo, ao tom e à melodia.
- Corporal-cinestésica — controlo e coordenação do corpo, como em atletas ou bailarinos.
- Espacial — manipular mentalmente formas e espaço.
- Interpessoal — ler e trabalhar eficazmente com outras pessoas.
- Intrapessoal — autoconhecimento e autorregulação.
- Naturalista — reconhecer e classificar padrões no mundo natural (acrescentada em 1999).
Gardner também aventou uma possível nona, a inteligência existencial — sensibilidade às «grandes questões» sobre a vida e o sentido —, sem nunca se comprometer plenamente com ela como categoria formal.
Por que é popular, sobretudo nas escolas
O apelo da teoria é fácil de perceber: diz a cada aluno que é inteligente de alguma forma, em vez de o classificar num único eixo. Para os professores, oferece um vocabulário para valorizar capacidades que um teste tradicional ignora — música, movimento, aptidão social — e uma justificação para ensinar a mesma matéria de formas diferentes. Trata-se de uma ideia pedagógica genuinamente útil, quer a afirmação subjacente sobre a estrutura da inteligência se venha a revelar correta ou não, o que explica em parte por que a teoria se manteve influente na educação mesmo à medida que os investigadores em psicometria se tornavam mais céticos quanto a ela.
O que as evidências realmente mostram
Quando as inteligências propostas por Gardner foram medidas diretamente e testadas umas contra as outras, os resultados não confirmaram a sua independência. Visser, Ashton e Vernon (2006) construíram testes para cada um dos domínios de Gardner e verificaram que as pessoas com bons resultados num deles tendiam a ter bons resultados nos outros — o padrão previsto por um único fator geral (g), e não por oito aptidões separadas. Uma revisão crítica distinta chegou a uma conclusão semelhante sobre as afirmações mais amplas feitas em nome da teoria na educação e na cultura científica popular (Waterhouse, 2006). Nada disto prova que as pessoas não tenham forças diferentes — claramente têm —, mas contraria a ideia de que essas forças constituam inteligências distintas, no sentido mensurável e psicométrico do termo.
Em que difere de um teste de QI
Um teste de QI padrão, como vemos em o que um teste de QI realmente mede, limita-se deliberadamente a um leque restrito de tarefas de raciocínio e conhecimento, precisamente porque são as tarefas que se correlacionam de forma fiável entre si e podem ser avaliadas em relação a uma norma. O modelo de Gardner tenta responder a uma pergunta diferente e mais ampla — que formas pode assumir a aptidão humana — e nunca foi construído nem validado como instrumento de avaliação à maneira de um teste de QI. A inteligência emocional é a construção vizinha com a tradição de medição mais estabelecida por direito próprio, o que explica em parte por que é tratada separadamente das oito inteligências de Gardner.
O que resta da teoria
A teoria das inteligências múltiplas lê-se hoje, na melhor das hipóteses, como uma filosofia educativa com valor real em sala de aula, e não como um mapa cientificamente validado da estrutura da inteligência: as duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Se tiver curiosidade em saber o que um teste de raciocínio tradicional, de resultado único, diz realmente sobre si, o nosso teste de QI gratuito normatizado por idade mede a construção de raciocínio geral que este artigo contrapõe à teoria de Gardner, e devolve o seu resultado e percentil em cerca do tempo que demora a ler esta página.
Perguntas frequentes
Quais são as inteligências múltiplas de Gardner?
Howard Gardner propôs inicialmente sete inteligências em 1983 — linguística, lógico-matemática, musical, corporal-cinestésica, espacial, interpessoal e intrapessoal —, tendo acrescentado a naturalista em 1999. Também discutiu uma possível inteligência existencial, sem nunca a adotar plenamente como nona categoria.
A teoria das inteligências múltiplas está cientificamente comprovada?
Não. Os grandes estudos que testaram pessoas nas inteligências propostas por Gardner encontraram, em geral, resultados correlacionados entre si, em vez de funcionarem como aptidões independentes — um padrão que sustenta o modelo tradicional de fator único da inteligência, e não a afirmação de Gardner de que as inteligências seriam separadas.
Inteligências múltiplas e QI são a mesma coisa?
Não. Os testes de QI medem um conjunto mais restrito de aptidões de raciocínio e conhecimento, combinadas num único resultado. A teoria de Gardner propõe uma lista muito mais ampla e não validada de talentos — incluindo aptidão musical e corporal-cinestésica — que os testes de QI nem sequer tentam medir.
Se as evidências são fracas, por que a teoria ainda é ensinada nas escolas?
O apelo da teoria é sobretudo educativo e motivacional — incentiva os professores a valorizar um leque mais amplo de forças nos alunos — e não científico. A sua popularidade nas salas de aula manteve-se mesmo depois de a investigação psicométrica encontrar pouco apoio para ela como modelo real da estrutura da inteligência.
Fontes
- Gardner, H. (1983). Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences. Basic Books.
- Waterhouse, L. (2006). Multiple intelligences, the Mozart effect, and emotional intelligence: A critical review. Educational Psychologist, 41(4), 207–225.
- Visser, B. A., Ashton, M. C., & Vernon, P. A. (2006). Beyond g: Putting multiple intelligences theory to the test. Intelligence, 34(5), 487–502.
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